sábado, 14 de fevereiro de 2009

clandestina

Ela penetrou em meu recinto
para roubar informações sigilosas.
Construiu uma teia de palavras ao meu redor.
Como uma abelha tece a sua colméia.
Como uma larva tece seu casulo.

Mas não tem mel, não tem borboleta.
Apenas tudo o que é infame!

E como livrar-me dessa excrescência?
Camada podre
a sobejar da minha pele...

Calúnias urdidas por um crocodilo insone!

mil paranóias

pirulito profilático
profecia profícua
proeza profana
profundos parênteses
paralelepípedos petrolíferos
parapeito portátil
pórtico prateado
pranteando pus
pútrido pão
pérfido pó
primícias poligonais:
Portanto, polinizo
pólipos paradoxais.

autismo selvagem

o tempo em que eu estive na floresta
percorrendo caminhos subterrâneos
buscando atalhos marginais
manteve-me longe de tudo o que é socializado.

Agora sou uma só
mergulhada no meu próprio mundo
autofagicamente.

enfim, Fuzo

a filigrana fictícia flui
fadada a fosforecer fértil
farfalhando folhas fúteis:
fuste afogueado;
fetiche-fóssil;
fumo infindável;
falho nenúfar
desfolhando fácil
feito lusco-fusco nefelítico.

grafia eterna...

destrinchar palavras
inscrever na pedra o sotaque
triturar a pedra
cinzelar, burilar:

bater pedra com pedra
para formar outras pedras,
minúsculas:

faíscas.
Montada numa ovelha
suicidei minha libido
num astrolábio dimante
que joguei no rio translúcido.

Isso já tem alguns meses...
agora sou uma pessoa casta

da castidade pura e simples dos minerais.

Nada religioso: apenas posso viver sem Eros...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Contratempo

(a Daniel Zandonadi)

a filigrana no canudo:
túnel rasgado de luz.
elmo, espada, escudo:
estou armada de veludo
almocei e jantei cuscuz.

sépia, canela, feno:
o inverno chega e
contradiz:
gravetos tilintam ao vento,
o açúcar é só fermento,
soluço meu monumento
enquanto você é feliz.